Febre amarela é registrada no Brasil desde o século XVII; fotos mostram luta contra a doença no passado

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Febre amarela é registrada no Brasil desde o século XVII; fotos mostram luta contra a doença no passado

Já se acreditou que a doença surgia por ‘geração espontânea’. Medidas como sangria e queima de ervas foram tentadas, mas eram inócuas. Confira o percurso da febre amarela, doença que se confunde com a história do Brasil.
As filas, os casos e as mortes por febre amarela estão longe de ser um problema dos dias atuais. O Brasil convive há séculos com a doença: o primeiro caso do qual se tem conhecimento ocorreu em Pernambuco, no ano de 1685, com um surto de 10 anos.
Na mesma década, a doença chegou à Bahia: o número de doentes foi calculado em 25 mil e o de mortos, em 900.
O frei Diego Lopez de Cogolludo foi um dos primeiros a fazer um relato detalhado da doença no Brasil. No trecho abaixo, ele descreve a remissão da doença.
“Na maioria, no terceiro dia, a febre parecia ceder totalmente; diziam que já não sentiam dor alguma, cessava o delírio, conversavam com juízo, porém não podiam comer nem beber coisa alguma, e assim duravam outro ou outros dias e, dizendo que estavam bons, expiravam”.
A primeira necropsia de morte por febre amarela também é do século XVII. Realizada em 1692, em alto mar, ficou registrada a “podridão no fígado” — em consonância com a hepatite, um dos sintomas graves da doença hoje conhecidos.
O que sabemos hoje sobre a febre amarela — o seu ciclo urbano, e o silvestre — e o fato de ela ser transmitida por mosquito também é uma conquista histórica: antigamente, havia um debate sobre se a febre amarela era transmitida entre pessoas e havia intensas campanhas de higienização na tentativa de controlar a transmissão.
Também houve quem acreditasse que a doença surgia por “geração espontânea” no Brasil nos navios que chevam aqui. Faziam-se queimadas com ervas para tentar prevenir a doença.
“As casas em que tivesse havido mortos seriam caiadas de nôvo, lançando-se ao mesmo tempo cal virgem pelo chão e água por cima e, à noite, de portas fechadas, queimar-se-iam defumadores, sob pena de multa de dez tostões, dobradas nas reincidências”, relata o historiador Odair Franco, em livro sobre a história da febre amarela, em 1969.
Entre os tratamentos, estavam as sangrias, que tinham várias aplicações na época, mas também foram usadas para a febre amarela.
Depois desse primeiro surto no século XVII, a doença ficou “desaparecida” por 150 anos, quando fez um retorno em meados de 1850. Foi nessa época, com os estudos do médico Carlos Finlay, que se chegou à constatação de que havia um mosquito no ciclo de transmissão da doença. Mas o percurso não foi fácil até aqui.
A descoberta de que o mosquito fazia parte da transmissão
Um relatório foi apresentado em Congresso Pan-Americano em Cuba, no final do século XIX, em que foi divulgado que o pernilongo do gênero culex seria um dos vetores e que “a propagação da febre amarela pode ser eficazmente reduzida pelos meios destinados à destruição do mosquito e à proteção dos enfermos contra a picada deste”.
Em 1901, o famoso médico brasileiro Emílio Ribas, então Diretor do Serviço Sanitário, escreveu o primeiro trabalho sobre o assunto no Brasil: ”O mosquito considerado como agente da propagação da febre amarela” descrevia, ainda, ser preciso “evitar águas estagnadas”.
Também o bacterologista Oswaldo Cruz, que hoje dà nome à instituição que produz vacina da febre amarela e produz estudos importantes sobre doenças, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), colocou em curso importantes ações para a prevenção da doença.
Dentre o combate ao vetor causador, as ações incluíam multas a propriedades “insalubres” , com indicações para demolições ou reforma.

O macaco no ciclo de transmissão
Em 1927, na África Ocidental Francesa, pesquisadores da Fundação Rockefeller provaram que o Macacus rhesus é suscetível à febre amarela. Com isso, chegaram à hipótese de que a infecção foi transmitida do homem ao macaco e do macaco ao homem por meio da picada de mosquitos alimentados em animais ou humanos doentes.
Durante muito tempo, a febre amarela era considerada uma doença urbana. A primeira forma silvestre foi identificada em 1898, no interior de São Paulo, por Adolpho Lutz.
Nos anos 30, essa forma da doença apareceu na Bahia, Amazonas, Pará, Mato Grosso e depois em Goiás, Minas Gerais e em São Paulo. E 1938, ficou demonstrado que os mosquitos silvestres Haemagogus e o Aedes leucocelaenus também eram vetores.

A chegada da vacina
A primeira tentativa de vacina foi feita com a Fundação Rockefeller nos anos 1920, no Equador. O bacteriologista japonês Hideyo Noguchi fez o imunizante com base no fato de que a doença fosse causada por uma bactéria. Os estudos não vingaram, entretanto.
Mais tarde, cientistas do Instituto Pasteur desenvolveram uma vacina conjunta para imunizar contra a febre amarela e varíola, mas efeitos colaterais eram um problema para o uso expandido.
A fundação Rockfeller também testou versões do vírus atenuada, mas que dependiam de soro humano, não disponível.
Também foi com o dinheiro de Rockefeller que, na década de 1940, montou-se o laboratório para fabricar a vacina contra febre amarela. É o laboratório de Biomanguinhos, na Fiocruz, que produz a vacina até hoje.
Com a chegada da vacina, o último ciclo urbano da doença ocorreu em 1942, com o Brasil enfrentando alguns surtos de febre amarela silvestre desde então.
Segundo o Ministério da Saúde, no período de 1980 a 2004, foram confirmados 662 casos de febre amarela silvestre, com ocorrência de 339 óbitos, representando uma taxa de letalidade de 51% no período.
Com a chegada do Aedes Aegypti em áreas urbanas nos anos 1970, campanhas constantes de imunização e ações para conter a transmissão têm sido realizadas para que o período mais sombrio da febre amarela, com mais óbitos, não retorne.
As informações são da Fiocruz, Ministério da Saúde, Departamento de Educação da Universidade Estadual Paulista (Unesp), “História da Febre Amarela no Brasil”, obra do Dr. Odair Franco, de 1969; e “Febre Amarela: a doença e a vacina, uma história inacabada”, obra com coordenação do historiador Jaime Larry Benchimol (Editora Fiocruz). As imagens foram cedidas pelo Acervo Casa de Oswaldo Cruz.
Só em 1937 uma mutação em uma das cepas possibilitou a produção de um vírus atenuado. Em testes no Brasil, estima-se que um milhão de pessoas foram vacinadas até 1939, sem complicações.

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